segunda-feira, 28 de setembro de 2015

61: “Já só faltam quatro meses”

- Onde é que vais? – perguntava Ana a Sergio. 
- Ah, olha quem aqui está! – Sergio, que se preparava para sair de casa, deu meia volta e foi ter com Ana ao sofá – não deverias estar no teu repouso absoluto na nossa cama? 
- A médica disse que bastava uma semana e depois podia começar, aos poucos, a retomar a minha vida. Eu sei que te assustou aquela perda de sangue toda, a mim também. Mas são cinco meses, esta barriga não pára de crescer e eu não consigo ficar tanto tempo na cama – à medida que ia falando, Ana mexia na cara de Sergio. 
- Estás quentinha? – Sergio aconchegou Ana com a manta que esta tinha a tapá-la. 
- Estou – o rapaz levou a sua mão esquerda à barriga de Ana, sentindo logo um forte pontapé – a Pilar vai passar aí com a Esperanza. E onde é que vais? 
- Tenho uns assuntos para tratar no Real. Por causa do contrato. 
- Hum. Vai lá trabalhar, então, Sr. Ramos – Sergio despediu-se de Ana com um beijo apaixonado, saindo de casa. Cruzou-se com Pilar e Esperanza quando se preparava para sair do portão de casa. 
A campainha tocou e, com calma, Ana levantou-se para ir abrir a porta. 
- Olha quem são elas! – Esperanza agarrou-se às pernas de Ana, olhando para ela. 
- Bebé! – Esperanza levou as suas mãos à barriga de Ana, dando-lhe imensos beijos sobre a camisola. 
- Vamos entrar que está frio, Esperanza – disse Pilar, fazendo com que a menina corresse até ao sofá. Cumprimentou Ana, acariciando-lhe a barriga – está cada vez maior! 
- E parece que não pára mesmo de crescer...
- Oh, mas está tão bonita! – as duas riram-se e foram até ao sofá, também. Esperanza já estava a olhar para a televisão (era impressionante como já agarrava no comando e mudava para o canal dos desenhos animados).
- Como é que estão? – perguntou Ana. 
- Está tudo bem. Ela anda toda contente na escolinha, já se ambientou e eu já ando com um trabalho em vista. 
- A sério? Isso é ótimo, Pilar!
- Sim. Vou aproveitar o meu curso de esteticista...
- Isso é ótimo mesmo. É uma coisa que está em expansão por toda a Espanha. 
- Obrigada. 
- Não me tens de agradecer nada, querida. 
- Então e vocês? – Pilar levou as suas mãos à barriga de Ana – como é que este bebé se anda a portar?
- Irrequieto, pesado e ando super enjoada de manhã...
- Então agora é que tens enjoos?
- As minhas gravidezes não são muito normais – as duas riram-se e Ana, olhando para o chão onde estava Esperanza, percebeu que a menina tinha adormecido – sempre gostou de dormir no chão, é impressionante. 
- Ela adormece imensas vezes assim! 
- Está cada vez maior...
- Quem diria que esta piolha já corre de um lado para o outro! 
- É tão linda – Ana não resistiu e fotografou-a, partilhando nas redes sociais.

A gorda mais linda da madrinha. Te amo, bochechas boas


- Mantêm-se os planos do casamento? – perguntou Pilar. 
- Sim. Nós queremos casar...mas, sinceramente, não me sinto com energia de preparar o casamento. 
- Grávida, com uma dieta de sopas e descanso...organizar um casamento não é a melhor combinação, não. 
- Ainda tenho de falar com o Sergio. Depende do que aconteça daqui para a frente. 
- Onde é que foi esse parvo? 
- Ao Real. Tratar de qualquer coisa do contrato, mas ele anda tão estranho. 
- Ele já é estranho – as duas riram-se, olhando uma para a outra – se calhar anda a preparar-te uma surpresa. 
- Ele não consegue. Eu descubro sempre! 
- Olha que ele pode surpreender. 
- Duvido. A sério, o Sergio não consegue manter surpresas durante muito tempo. 




- Eu não quero saber o sexo do bebé... – Sergio, que conduzia em direcção do consultório médico, olhou para Ana – eu prefiro não saber, Sergio. Por favor. 
- Mas...eu posso saber? 
- Claro! 
- Porque é que não queres saber? 
- Acho que prefiro jogar pelo seguro e não saber o que comprar, que nome escolher...prefiro só saber no dia em que nascer. 
- Mi amor – Sergio agarrou a mão de Ana, beijando-a – vai correr tudo bem! 
- Sim, vai. Mas eu prefiro assim, Sergio. 
- E eu respeito isso. 
- E estás proibido de me dar pistas! 
- Combinado. 
- Tu não vais aguentar...eu já sei como és. 
- Vais ver que te surpreendes! – depressa chegaram ao consultório da médica e, depois de algumas perguntas e conversa, passaram à ecografia. 
- É hoje que sabemos o sexo do bebé? – perguntou Sergio. 
- Se ele deixar...mas eu acredito que sim. 
- Eu não quero saber – disse Ana – diz só ao Sergio, por favor, Marta – a médica estranhou aquele pedido, olhando para os dois – diz só ao Sergio, eu prefiro assim. 
- Muito bem. Eu guardo as imagens num envelope e escrevo o sexo do bebé só para o Sergio. 
- Obrigada, Marta – a médica foi a única que viu as imagens em tempo real – está tudo bem? 
- Está sim senhora. Continua saudável como no primeiro dia, a crescer com as dimensões certas e tens todos os valores das ultimas analises com valores estáveis – Marta olhou-a – descansa, relaxa, que está tudo no caminho certo. 
- Obrigada, Marta. 
- Podes limpar a barriga que eu vou buscar as imagens para vos dar – Marta ausentou-se e, depois de limpar a sua barriga, Ana sentiu a mão de Sergio chocar contra a sua barriga. Tinha a mão quente, contrastando com a sua barriga fria. Claro que não deixou escapar aquele momento...eram poucas as fotografias que tinha da sua barriga. 
- Está a correr tudo bem, mi amor. 
- Já só faltam quatro meses – levou as suas mãos à cara de Sergio, beijando-o. 
- Está quase! Vai passar tão depressa que nem vamos dar por isso. 
- Mas vamos manter a calma. 
- Foi bom não teres começado a trabalhar. 
- Tinha de fazer escolhas e, neste momento, eu prefiro ter uma gravidez calma como estamos a ter. 
- Dentro dos possíveis... 
- Sim. Isso é verdade. 
- Ana... 
- Diz? 
- Posso convidar a tua avó para jantar lá em casa? 
- Tu? 
- Sim...vocês precisam de estar juntas. E eu posso dizer que tu não sabes de nada e ser surpresa. 
- Tudo bem – Ana reparou que Sergio ficou surpreendido com aquela resposta – eu já percebi que queres que a minha avó faça parte da minha gravidez e do nascimento do nosso filho. E eu também quero isso. 
- Vou tratar disso, então – Sergio beijou-a e, depois de estarem despachados do médico, foram até casa. Ana aproveitou para publicar a imagem de à pouco nas redes sociais.

Estamos ansiosos à tua espera, bebé #QuatroMesesMais


- Não estejas tão nervosa, por favor – Sergio agarrava as mãos de Ana, olhando-a sério – isso faz mal ao bebé. 
- Sergio mas... 
- A tua avó demonstrou estar bastante tranquila e à vontade com o jantar. Não tardará em chegar e...vocês vão entender-se. 
- Espero que sim – a campainha tocou, sobressaltando Ana. Olhou para Sergio que lhe deu um curto beijo nos lábios. 
- Eu vou abrir – Sergio levantou-se do sofá, indo abrir a porta – buenas noches, Palmira. – a avó de Ana sorriu-lhe, cumprimentando-o com dois beijos. 
Entrou em casa, olhando séria para a neta mas, ao mesmo tempo, com uma ternura que Ana desconhecia. 
- Olá – disse, aproximando-se de Ana que, naquele momento, se levantou para cumprimentar a avó. 
- Obrigada por ter vindo – deu-lhe dois beijos sendo surpreendida por um abraço terna daquela avó que julgava ter perdido. 
- És minha neta, eu vim para Madrid para estar perto de ti e é isso que vou fazer – Palmira olhou-a – a avó promete que, nos últimos anos que me faltarem nesta vida, estarei sempre a teu lado – Ana olhou à sua volta já não vendo Sergio naquela sala. 
- Sente-se – Ana afastou-se da avó e as duas sentaram-se naquele sofá. 
- Estás tão bonita – Palmira levou as suas mãos à barriga de Ana, causando um certo desconforto na neta – já sabes o sexo do bebé? 
- O Sergio sabe...eu prefiro não saber. 
- Preferes não saber? 
- Sim...como sabe, já sofri dois abortos e tudo isso ainda mexe imenso comigo. Na verdade, eu queria muito saber para já ir começando a preparar tudo...mas eu não quero. Prefiro que assim seja. 
- Se eu perguntar ao Sergio...será que ele me diz? 
- Tenho quase a certeza que sim. 
- Ana... – Palmira agarrou as mãos da neta olhando-a séria – eu sei que nem sempre fui uma avó como tu precisarias. Ou melhor, eu nunca o fui. Mas, e se tu o permitires, eu quero recuperar o tempo que perdi da tua vida. Quero imenso fazer parte da tua vida neste momento importante, quero estar a teu lado nos primeiros dias de vida do meu bisneto ou bisneta. Eu peço-te perdão por tudo o que aconteceu...por não ter sido a avó que precisavas. 
- Tenho sonhado consigo nas ultimas noites – Ana levou a sua mão direita ao rosto enrugado mas bonito da sua avó – nesses sonhos, eu volto a ser aquela menina feliz em criança, volto a ter uma energia que neste momento não tenho...e tenho-a a si a brincar comigo. Esses tempos já não podem ser recuperados, não podem ser revividos...vamos ter de construir novos. E melhores do que aqueles que não existiram... 
- Promete-me uma coisa, querida. 
- Diga – Palmira levou as suas mãos ao seu pescoço, retirando um dos seus colares. Um fio de ouro muito fino com um anjo como pendente. 
- É o teu anjo d’aguarda – Palmira agarrou a mão de Ana, deixando o fio na sua palma da mão – é o anjo do mês em que nasceste e eu comprei-o para te oferecer. Nunca o fiz...mais um erro que cometi ao longo da minha vida mas, por favor, promete que o irás guardar a partir de agora. Tenho-o na minha posse à 24 anos. Exatamente aqueles que tu hoje tens. Acredito que, mesmo longe de ti, te tenha vindo a proteger e, hoje, passo-o para ti. Para que tenhas mais perto a proteção – Ana olhou para o colar, emocionando-se. 
- Obrigada, avó – Ana pegou no colar, colocando-o ao pescoço – acredite que significa muito para mim. 




- Sergio eu preciso de falar contigo – Ana chegava à cozinha, onde Sergio tomava o seu pequeno-almoço. Era véspera de natal e, naquela manha, Ana estava com algumas dores fortes na barriga. 
- Primeiro deixa-me tirar-te uma foto para desejar bom natal aos nossos seguidores – Ana riu-se e Sergio fotografou-a acabando por partilhar a imagem nas redes sociais.

Feliz Navidad a todos!


- Agora sim, dime – Ana sentou-se à frente de Sergio, agarrando as suas mãos. 
- Sabes que te amo, não sabes? 
- Sou capaz de saber um pouco. 
- E que quero muito casar contigo? 
- Sim... 
- Sergio, ando a sentir-me demasiado cansada, hoje voltaram as dores na barriga... 
- Ana! Porque é que não disseste antes!? 
- Não, não. Está tudo bem, não precisamos de ir para o médico. Está tudo controlado, a sério – Ana levou as suas mãos à face de Sergio tranquilizando-o – o que eu quero dizer é...eu acho que... 
- Ana, vá, fala de uma vez. 
- Acho que deveríamos adiar o casamento. Eu não consigo, neste momento, planear tudo o que falta a pouco tempo do casamento. 
Faltavam duas semanas para a data prevista. Já tinham decidido o local, quem queriam convidar e como tudo iria ser naquele dia tão especial. Ana viu o semblante de Sergio mudar por completo...e sentiu-se demasiado nervosa naquele momento.

terça-feira, 28 de julho de 2015

60: “Como assim vão partir de Madrid?”

- Tens a certeza que estamos na morada certa?
- Tenho Sergio...conheço Lisboa como conheço as palmas das minhas mãos.
- Não sei se confio em ti –
Ana olhou-o, revirando os olhos. Sergio sabia que ela não levava aquelas brincadeiras pelo melhor, sobretudo quando estava de mau humor – mas, isto está muito sossegado e abandonado.
- Tens razão...mas nós estamos no sitio certo –
Ana dirigiu-se à porta que estava na sua frente, tocando à campainha.
Esperaram pouco para ver a porta abrir-se. Uma senhora, na casa dos sessenta e poucos anos, abria-lhes a porta. Pela descrição que Miranda tinha feito, era Manuela.
- Boa tarde – muito baixo, Manuela cumprimentou-os olhando, à vez, para eles.
- Boa tarde – os dois, em uníssono cumprimentaram a senhora.
- Eu sou a Ana – avançando na direção de Manuela, Ana sentiu-se a ficar nervosa – nós viemos buscá-la.
- O meu marido...ele deve estar a chegar da rua –
os dois conseguiram ver o pânico instalar-se no rosto de Manuela. Perceberam, ali, que aquela senhora viveria um autêntico pesadelo naquela casa.
- A senhora tem tudo pronto? – num português muito estranho, foi Sergio quem fez a pergunta.
- Sim, sim...
- Vamos, então, buscar as suas coisas –
Manuela abriu-lhes a porta, deixando-os entrar. Contrariamente ao que pensou, no interior daquela casa o cenário era calmo, parecendo quase uma casa feliz onde se respirava um cheiro intenso a rosas misturado com baunilha.
- Eu vou lá dentro buscar as malas.
- Quer ajuda? –
perguntou-lhe Ana.
- Não, deixa estar. Vocês já me estão a ajudar imenso. É pouca coisa, são só duas malas...a Miranda disse que devíamos partir de Madrid – os dois olharam-se, enquanto a senhora foi até ao seu quarto.
- Como assim vão partir de Madrid? – perguntou Ana, colocando-se à frente de Sergio.
- Não faço ideia...nas noticias tem surgido que o Xabi vai para o Bayern.
- E eles não nos diziam nada? A Miranda não me dizia nada?

- Se calhar estão à espera do momento certo. Se for verdade...
- É estranho, Sergio. Muito estranho. Se a D. Manuela já fala de se mudarem de Madrid...
- Tem calma, quando lá chegarmos logo saberemos o que se passa.

Sergio abraçou-a, esperando pela chegada de D. Manuela.
- Eu não sei como vos agradecer – começando a sair de casa, D. Manuela parecia bastante emocionada.
- Nós só aqui estamos porque a Miranda nos pediu...somos apenas os intermediários entre vocês.
- Oh minha querida –
Manuela agarrou-se ao braço de Ana, olhando-a fixamente – é preciso serem muito boas pessoas para estarem a fazer algo assim. E eu ficarei eternamente grata por, aos 64 anos, me estarem a dar uma segunda oportunidade para viver.
- Estamos a dar-lha porque merece. Porque, mesmo por pouco tempo, conseguiu ser a única a ser uma mãe para a Miranda.

Manuela abraçou Ana, deixando-se ficar a olhar para a sua casa.
- Eu vou ter saudades da minha casa...
- Acredite, D. Manuela –
Sergio colocou a sua mão em cima do ombro de Manuela, fazendo-a olhar para ele – a senhora precisa de ser feliz.
Manuela, mesmo deixando as lágrimas escaparem-lhe pela cara, conseguiu sorrir. Os olhos de Manuela ganhavam um brilho, um brilho de esperança e confiança.
- Boa tarde – todos se assustaram com aquela voz grave e rouca de homem que surgiu atrás dele – posso saber o que se passa?
- Hugo... –
Ana sentiu que Manuela começou a tremer que nem varas verdes e, também ela, começou a sentir o seu coração palpitar como se estivesse a querer sair-lhe pela boca. Olhou para Sergio, que demonstrava estar calmo e tranquilo. Quase como se o marido de Manuela não estivesse, agora, à frente deles.
- Quem são eles?
- Eu sou prima da Manuela –
Ana, muito rapidamente respondeu àquela pergunta – nós estávamos de passagem e lembrei-me de parar para a visitar.
- Não me lembro de te ver...
- A última vez que cá vim eu era muito pequena.
- Estou a ver –
Hugo olhava para Manuela com uma intensidade tal que deixou Ana desconfortável e com um frio estranho na barriga – já se estavam a despedir?
- Sim, sim –
Manuela virou costas a Hugo, olhando para os dois – gostei muito da vossa visita – Ana abanou a cabeça, abrindo a porta do carro.
- Entre Manuela – ao dizer aquilo, viu os olhos de Manuela abrirem-se de tal forma que pareciam querer sair da sua orbita – nós não a vamos deixar aqui.
- O que é que estão a dizer? –
Hugo apercebeu-se da situação, falando mais alto do que à pouco.
Manuela e Ana entraram no carro, para os bancos traseiro, ficando Sergio frente a frente com Hugo.
- Eu posso não falar muito bem o português – Ana riu-se, a situação não era a melhor para se rir, mas tinha-o feito – mas, se o senhor tem coraje para bater numa muler, você também tem coraje para bater num homem. Pero, não o vais fazer. Vai ficar aí e nós, vamos embora. No tente ir atrás, no mesmo.
Hugo deixou-se ficar estático naquele sítio. Olhava para Manuela de forma intensa, assustada até e com grande vontade de fazer alguma coisa. Mas, até saírem dali, Hugo não se movimentou e, quando o fez, foi para entrar em casa.
- Não sabia que conseguias ser assustador àquele ponto Sergio – já a caminho do aeroporto, Ana tinha iniciado a conversa naquele carro.
- Eu também não...mas saiu assim.
- E um portunhol muito engraçado –
disse Manuela, fazendo-os rir – eu estava a ver a minha vida andar para trás, por momentos.
- Nós não íamos deixar que isso acontecesse –
Ana agarrou a mão de Manuela – por mais que ele pudesse fazer alguma coisa, ameaçar-nos nós iríamos traze-la connosco.
- Muito obrigada, meus anjos –
Manuela agarrou a mão de Ana, beijando-a. Ficou a olhar para ela, de certa forma enternecida – estás de quantas semanas?
- Toma! Eu disse-te que já se começava a notar! –
atirou Sergio, batendo com a mão no volante. Manuela estranhou aquela reacção dele e Ana acabou por se rir.
- Nós temos uma longa história para contar em relação a isto. Resumidamente: estou de vinte semanas, ainda não sabemos se é menino ou menina, e, normalmente a minha barriga só se começa a notar a partir das 22 semanas.
- Mas olha que já se nota, Ana. Têm mais filhos?
- Não –
Ana pode ver que Manuela ficou confusa – eu é que já sofri dois abortos e o ultimo já com sete meses de gravidez.
- Oh minha querida...eu, eu sinto muito.
- Já passou...
- Deus vais recompensar-vos. As coisas boas acontecem a quem pratica o bem...e vocês são merecedores das bênçãos que Ele tem para vos dar.

- Obrigada, D. Manuela.
Quando chegaram ao aeroporto, bastou apenas fazerem o chek-in e rumarem a Madrid. A viagem seria rápida e, se não houvesse turbulência, tranquila.



- Se calhar era melhor não tocarmos à campainha... – comentou Ana, chegando ao portão de casa de Xabi – a Maya pode estar a dormir.
- Liga para o Xabi –
Sergio entregou-lhe o telemóvel e Ana fê-lo. Depois de conversar com ele, o portão abriu-se e puderam ver Miranda com Maya nos seus braços e Xabi já no exterior da casa.
Ana viu, estampado no rosto da melhor amiga, felicidade. Miranda estava mais feliz, estava relaxada e com um brilho resplandecente. Assim que Sergio parou o carro, todos saíram do mesmo.
- Eu nem acredito que já chegaram... – comentou Miranda, olhando para Manuela.
- Ah pois, isto é sempre para a frente – atirou Sergio – não te esqueças que tens de nos dar a Maya por um dia. Foi o combinado!
- Fica descansado, Sergito –
Miranda riu-se e acabou por entregar Maya nos braços de Ana – obrigada, por tudo, Ana.
- Não precisas de me agradecer nada, Miro. Mas temos muito que falar...
- Eu sei. E, perdoa-me por ainda não o ter feito.
- Vai –
Ana saiu da frente de Miranda, dando-lhe passagem para ir ter com Manuela – aproveita para descobrires uma mãe. Ainda vão a tempo disso.
Miranda sorriu-lhe, olhando para Manuela. Ana encostou-se a Sergio, olhando para Maya. A menina, de olho muito aberto, mantinha-se atenta e segurava o dedo indicador de Ana.
- Eles vão embora, Sergio.
- Como sabes?
- Eu conheço a Miranda...se ela ainda não falou comigo sobre isso foi porque ainda não teve coragem de o fazer. E, agora, pediu-me desculpa –
Ana olhou para Sergio, encostando a sua cabeça ao peito dele – devem ser os últimos dias deles por cá.
Sergio rodeou o corpo de Ana com os seus braços, olhando para Miranda e Manuela. As duas abraçavam-se e viam Manuela com um sorriso nos lábios. Viam-na abraçar Miranda como se todo o seu mundo estivesse concentrado nela.
- Sabes, Miranda – Manuela acabou por se afastar dela, olhando-a. Levou as suas mãos à cara da jovem e recente mãe, limpando-lhe as lágrimas que caiam pela sua cara – todos estes anos que passaram foram uma tortura para mim. Eu não sei o que é ser feliz desde aqueles meses que passaste na minha casa. Sempre te quis na minha vida, sempre quis cuidar de ti...e sempre soube que nunca havias tido mais ninguém que te quis adotar. Podes tu já ter 24 anos e eu 64 mas eu quero que saibas, que nunca me esqueci de ti. E que, neste momento e se o aceitares, eu poderei ser quem tu precisas que seja na tua vida. Posso vir tarde...
- Mas vem na melhor altura, Manuela –
Miranda interrompeu-a, dando-lhe um beijo na bochecha – chegou na altura certa, na altura para me ajudar a criar a minha filha, para me ajudar a ser mãe.
Ana emocionava-se com aquelas palavras delas. Alias, ninguém ficava indiferente ao que presenciavam. Tanto uma como outra tinha ficado marcadas por aqueles meses de Miranda em casa de Manuela. Tinham sido felizes naqueles meses e, agora, tinham uma nova oportunidade para o serem também.



Ana, Miranda, Manuela, Maya e Ane aproveitavam a bela tarde do dia seguinte em Fuencarral. Perto de Madrid, um sítio magnífico para poderem aproveitar o ar puro e fugir da cidade.
Miranda tinha deixado Manuela avançar com o carrinho de Maya e Ane para puder conversar com Ana.
- Ana, eu ainda não tinha dito nada porque não é certo...nós andamos a falar sobre isso mesmo antes de a Maya nascer, estamos a ponderar tudo.
- Miranda, é uma oportunidade única. É certo que vão para um sitio com uma língua complicada mas vocês adaptam-se bem. a liga alemã poderá não ser aquela coisa muito disputada, já sabemos que o Xabi será campeão – as duas riram-se e Ana acabou por parar olhando para Miranda – mas vocês estão prontos para aceitar. Eu vejo isso.
- Eu não sei...tenho medo de deixar o que estávamos a construir aqui.
- Vão continuar a construir lá, Miro. Não poderás ter medo. Tens um homem maravilhoso a teu lado, a Manuela que é uma senhora impecável, uma filha linda como a Maya e...calma, a Ane o Jon?
- Provavelmente vêem connosco.
- A sério?
- Sim. Já falamos com a Nagore, ela está reticente mas concorda com a ida deles connosco. Quer trocar a custódia deles. Em vez de ser o Xabi a estar com eles de quinze em quinze dias, é ela. Mas vai a Munique por causa da escola dos meninos.
- Miranda –
agarrando nas mãos da amiga, Ana sorriu – vocês têm tudo planeado, vão ser mais do felizes eu tenho a certeza disso. E eu só posso ficar feliz por ti e pedir-te uma coisa! Só uma.
- O quê?
- Que venhas cá na altura do Natal, em Janeiro e quando nascer o bebé.
- É claro que venho! Estarei cá sempre que precisares de mim...Janeiro porquê?
- Eu e o Sergio estamos a pensar marcar o casamento para essa altura.

- A sério? Podes ter a certeza que venho no natal e fico cá até essa altura para te ajudar com tudo!
As duas abraçaram-se, sendo interrompidas pelo choro de Maya. Estava na hora de comer. Fizeram uma pausa naquela caminhada e Ana, vendo que Ane e Manuela se tinham sentado à sombra para, também elas comerem, deixou-se ficar quieta e observar a extensão de água que tinha na sua frente.
Pouco depois, viu Miranda à sua frente, a fazer o mesmo com Maya no seu colo. Saberia que iria ter saudades da sua melhor amiga, da sua melhor companheira de vida...mas sabia que era altura de Miranda ser feliz como ainda não tinha sido.



- Ana, o que é que estás a fazer? – perguntava Sergio, vendo Ana muito concentrada no seu telemóvel.
- Uma declaração de amor.
- A mim?
- Não, seu convencido. À minha Miranda. Eu já estou cheia de saudades dela e só foram embora à uma hora!
- Isso é normal, meu amor –
Sergio deitou-se no sofá, deixando a sua cabeça sobre as pernas de Ana – olha, a tua avó?
- O que é que tem? –
Ana estranhou, e muito, aquela pergunta.
- Desde que lhe foste entregar as cartas...ela nunca mais falou contigo, pois não?
- Eu também não lhe liguei, Sergio. Deixa-me lá acabar isto.
 
Ana concentrou-se no telemóvel, terminando a publicação que fazia no seu instagram.

A vida uniu-nos de forma a nunca mais nos separarmos. Passamos tantos anos juntas naquele orfanato, tantos anos juntas a vivermos juntas e a partilhar todos os segredos e confidencias uma com a outra.
Tenho, em ti, a irmã que nunca um pai me deu. A melhor amiga de todos os tempos e a maior chata! Sempre me deste na cabeça pelas escolhas que fazia, sempre me olhaste com preocupação quando essas escolhas davam para o torto.
Cuidas de mim como uma irmã cuida da outra. Cuidas de mim como nunca ninguém cuidou. Podes ser mais nova que eu, uns mesinhos apenas, mas tenho em ti a irmã mais velha que nunca tive. Podemos ter a mesma idade, mas és a mais velha. És quem me protege.
Sei que faço o mesmo contigo. Não somos do mesmo sangue, mas aquilo que partilhamos uma com a outra, vale mais do que qualquer ligação de sangue. Nesta nova fase da tua vida, a de seres mãe da sobrinha mais linda que tenho, a de seres mulher e companheira do melhor namorado que podia ter, eu desejo-te o melhor. Mais do que desejo para mim. É aquilo que mereces.
Sê feliz meu amor. Estarei sempre à tua espera.
Amo-te, Miranda. Minha irmã.


- Estás mesmo lamechas!
- Oh, não comeces.
- Está muito bonito o texto, Ana.
- Obrigada –
Ana mexeu-lhe no cabelo, olhando fixamente para Sergio – achas que deveria falar com a minha avó?
- Não sei...mas vocês deixaram as coisas muito más entre vocês. E ela está cá em Madrid porque veio por ti...

Ana sabia que Sergio tinha razão...e sabia que teria de fazer qualquer coisa. Havia dias que olhava para as cartas que o seu tio lhe tinha entregue, sem nunca as conseguir ler. Pensava na sua avó...e naquilo que tinha ficado por dizer. 
 
 
 
 
Olá meninas!
Pois é, finalmente um capítulo! Não é que o tenha andado a escrever...porque já estava escrito à uns belos dias. Mas, sabem, às vezes dá preguiça de publicar, metem-se outras coisas para fazer e esqueço-me completamente de o fazer. Peço desculpa por isso.
Fico à espera dos vossos comentários!
Beijinhos.
Ana Patrícia.

terça-feira, 23 de junho de 2015

59 - “Chegou o momento de perder o medo?”

Olá meninas!
Quero começar por vos pedir desculpa. Sei que já passaram quatro meses desde que publiquei o último capitulo...mas não pensem que desisti da história. Ok, se calhar desisti um bocadinho...a verdade é que a história deixou de me inspirar, de me dar vontade de a escrever e as ideias acabaram por desaparecer por algum tempo. Pensei muito no rumo que queria dar a esta história e só vos posso dizer que pretendo terminá-la. 
Não sei quando será, quantos capítulos faltam ou como irei terminá-la. Mas esta decisão já está tomada. Tenho já algumas coisas planeadas para os próximos capitulos e, hoje, deixo-vos aqui o 59! 
Boa leitura!



- Agora que eles estão todos lá fora a brincar, explica-me o que se passou - Ana chegava a sala, sentando-se ao lado de Miranda.
- É tão estranho - Miranda virou o seu corpo ligeiramente para Ana, agarrando-lhe as mãos - lembras-te daqueles oito meses que eu estive com uma família entre os meus 13 e 14 anos?
- Lembro pois -
Miranda, nessa altura, esteve em casa de um casal que cumpria todos os requisitos para a adoptarem. Depois de um período onde tudo corria bem, o homem da casa começou a revelar-se violento para com a mulher.
- A Manuela...que era a senhora que me queria adoptar e sempre me tratou bem, bom ela ligou-me.
- Não sabia que mantinhas contacto com ela...
- Achas? -
Miranda, com alguma dificuldade, levantou-se andando um pouco pela sala - eu nunca falei com nenhum deles desde que ela me foi entregar ao orfanato - Manuela, por perceber que o seu marido se tornava cada vez mais agressivo, optou por desistir do seu sonho de ter uma filha para o bem de Miranda, indo entregar a jovem ao orfanato - eu não sei como, mas ela conseguiu o meu número e ligou-me quando estávamos a sair da maternidade.
- Isso é estranho...
- É ainda mais estranha a conversa que tivemos.
- O que é que te deixou nesse estado tão nervosa e o Xabi a chorar?
- Oh o Xabi estava a chorar porque eu estava a chorar...
- Mas ele disse que ias precisar de mim.
- E vou. Mas, ai, não penses coisas más. Eu estou bem e está tudo bem...mas aquela mulher. Ana ela pediu-me ajuda para fugir do marido.
- O quê?!
- Ela está desesperada e não sabia a quem recorrer. Tem pouca família e os poucos que são não se querem meter nos assuntos deles -
Miranda sentou-se, de novo, ao lado de Ana - ela estava desesperada e só chorava a falar comigo. Tu sabes que, se ela não me tivesse levado ao orfanato, muito provavelmente acabaria por sofrer também com o marido dela.
- Eu sei disso mas...como é que a queres ajudar? Foste mãe à tão poucos dias, estás debilitada e não convém saíres do país... - Miranda baixou o olhar e, naquele momento, Ana percebeu que era para isso que Miranda precisaria da sua ajuda - é nessa parte que eu entro?
- Eu não te peço para ires lá, eu acredito que tenhas muitas coisas a fazer mas...ai eu não sei. Mas eu quero ajudá-la -
Miranda começou a chorar, deixando Ana surpreendida.
- Porque choras?
- Ela foi quem mais se pareceu a uma mãe para mim...foi a única família que me quis adoptar e ela sempre me tratou bem e com amor. Eu sinto que devia fazer algo por ela...
- Onde é que ela mora?
- Em Lisboa.
- Eu ainda tenho uns dias de férias e acho que o Sergio também...nós podemos ir lá e tentar chamar as autoridades.
- Ana...eu sei que vai parecer um absurdo mas...eu gostava que ela viesse para cá.
- Bom... -
Ana não estava à espera daquele pedido por parte de Miranda. Nunca pensou que aquela senhora a tivesse marcado tanto - vais ter de falar com o Xabi.
- E...tu não te importavas de ir buscá-la?
- Se for isso mesmo que tu queres...eu vou. Peço ao Sergio que venha comigo e trazemos a Manuela para cá.
- E não achas que estou a ser precipitada?
- Não imaginava que ela te tivesse marcado tanto, acho que é mais isso. Mas entendo que a queiras ajudar. Miro...o marido bate-lhe desde aquela altura?

Miranda não respondeu com palavras, limitando-se a acenar afirmativamente com a cabeça. Ana também não conseguiu pensar em mais nada a não ser no sofrimento que aquela mulher vive à mais de 10 anos. Foram interrompidas pela entrada de Ane na sala.
- A Esperanza caiu e riu-se mas o tio Sergio pensava que era mais grave - Ane sentou-se ao colo de Ana, olhando para Miranda - estás a chorar outra vez, Miranda. É por causa da senhora?
- É, querida -
Miranda passou com a sua mão pela face de Ane, levando-a de seguida à sua cara, limpando as lágrimas que caiam - mas eu acho que a vamos poder ajudar. Só preciso de falar com o teu pai.
- Ele está lá fora a correr atrás do Jon e deixou a Maya no ninho dela -
tanto Ana como Miranda esboçaram um sorriso pela forma como a pequena Ane escrevia todos os acontecimentos e a alcofa da irmã mais nova.



- Não te importas mesmo?
- Claro que não. Prefiro ir contigo do que ires sozinha mas, se calhar devia combinar-se qualquer coisa com a senhora. Porque não é a Miranda a aparecer lá.
- Tens razão -
entraram em casa e Ana deixou Esperanza ir para o chão brincar - a Pilar disse que a vinha buscar ainda hoje.
- Então mas os casamentos não duram o dia todo?
- Duram -
os dois riram-se e Ana acabou por se sentar no sofá, sendo surpreendida por Esperanza querer ir para o seu colo. Pegou na menina, sentando-a nas suas pernas - quem diria que esta piolha já fez um ano!
- Um ano, um ano -
disse Esperanza levantando o seu pequeno indicador.
- Oh Sergio eu vou comer este dedinho - Ana abriu a boca, precipitando-se na direção do dedo de Esperanza. A menina começou a rir-se, intensificando a gargalhada quando Sergio a pegou ao colo, fingindo que ela era um avião.
Sentou-se ao lado de Ana, fazendo algumas cócegas à pequena Esperanza.
- Olha ela tem cócegas!
- Deixa a menina, Sergio -
Ana fingiu bater-lhe, fazendo com que Esperanza se risse ainda mais.
- Está é na hora de fazer uma sesta, não? - perguntou Sergio, reparando que Esperanza bocejava - deita aqui - Sergio apontou para o seu peito e a menina deitou-se em cima dele.
Não demorou nem 10 minutos para Esperanza adormecer. Toda a excitação do dia, a correria e brincadeiras deixaram-na completamente cansada.
- Quero tanto ver o nosso filho cá fora - Ana falou em sussurro para não acordar a menina.
- São mais vinte semanas, meu amor - Sergio levou a sua mão até à barriga de Ana - já podia era começar a crescer a barriga e a sentir os pontapés.
- Já temos experiência nisto...a minha barriga só cresce a partir das 22 semanas, já sabes. Antes disso é só quando estou inchada.
- Continuas com medo? -
Sergio sentiu que Ana contraiu todo o seu corpo, desviando o seu olhar do de Sergio.
- Um bocadinho...preciso de me aconselhar com a minha médica, se há qualquer coisa que se possa fazer para ter mais garantias que a gravidez não será de risco.
- Se for de risco ela diz qualquer coisa, não?
- Claro. Mas, não sei, devia haver possibilidade de fazer qualquer teste, ou vitaminas...qualquer coisa que me desse mais garantias, entendes?
- Sim, claro. A médica vai manter-nos sempre informada e alerta. Já pensaste se será menino ou menina?
- Oh...claro. Mas tenho medo de pensar muito porque, lá está, eu tenho medo.
- Ana, mi amor, es nuestro hijo... não podemos ter medo de sonhar com ele, de o amar e sentir que ele existe. É o nosso bebé, o filho que Deus nos quer dar...fomos destinados a ter um bebé juntos. Está destinado a sermos pais. Juntos.
- Eu já perdi dois bebés, dois -
Ana agarrou a mão de Sergio, olhando para ele - ser mãe é o que eu mais quero na vida e, sendo tu o homem que amo, só te vejo como o pai dos meus filhos. Eu quero e já amo muito este ser maravilhoso que cresce, saudável, dentro de mim. Mas o passado recente deixa-me insegura, frágil e com medo - Sergio sorriu-lhe e acabou por, também ela, sorrir - e...Sergio, eu quero falar contigo sobre outra coisa.
- Dime, mi reina.
- Estamos noivos...
- Pois estamos, estamos.
- E eu não quero que seja algo muito rápido. Temos de pensar bem, em datas e que seja com calma. Não interessa se é daqui a um ano, ou dois, ou até mesmo amanhã. Mas que seja com calma...
- Oito de janeiro.
- Hã?
- É a data mais marcante para nós. Conhecemo-nos nesse dia, apaixonei-me por ti nesse mesmo dia. Acho que é uma data bonita.

- Tinha pensado mais no verão mas...essa data é muito melhor, sem dúvida - Ana aproximou-se dele e, tentando não tocar em Esperanza, deu-lhe um longo e apaixonante beijo.
- Casamos para o ano? - perguntou Sergio deixando Ana surpreendida.
- Já?
- Temos tempo para planear tudo com calma, todos os detalhes e...
- Eu vou estar de sete meses, com uma barriga já grande!
- Pois...não queres?
- Não. Sim, quer dizer claro! -
voltou a beija-lo intensamente não resistindo a acreditar que a sua vida iria melhorar, que aquele bebé iria ser forte o suficiente para nascer e crescer saudável. Ana acreditava, enquanto beijava Sergio, que tudo seria bom dali para a frente.



- Vá lá, fiquem para jantar... -
pedia Ana a Pilar e os seus pais.
- Querida, não queremos dar mais trabalho - a mãe de Pilar aproximou-se de Ana, agarrando-a pelo braço - vocês precisam de descansar e não de tratar de jantar para tantos.
- Não são assim tantos... -
comentou Sergio, pegando em Esperanza ao colo.
- Mãe, se eles insistem nós ficamos. São eles a ter o trabalho - Pilar e Ana riram-se e todos acabaram por ficar mais animados.
Ana, Pilar e Antonella foram até à cozinha para começarem a tratar do jantar.
- Estamos mesmo a contribuir para a natalidade deste país.
- Estás tu e a Miranda. Eu ainda não contribuí com nada...
- Daqui a sete meses vais contribuir, minha querida.
- Sete meses...
- Alguém continua com muito medo ou é impressão minha? -
perguntou Pilar, aproximando-se de Ana. Reparava que a rapariga olhava para a sua barriga, ao mesmo tempo que permanecia agarrada à bancada da cozinha - eu não posso dar grandes conselhos de gravidez porque a minha experiência foi...completamente diferente de qualquer outra que conheço.
- Mas, e desculpem interromper, eu acho que a Ana precisa mais do que conselhos -
Antonella conseguiu capturar toda a atenção das duas - antes de seguires qualquer conselho sobre o que fazer, neste momento precisas de te entregar à esperança de que esse rebento irá nascer. Tens de te concentrar nele e esquecer o que já te aconteceu. Faz parte do passado. Neste momento é o presente que importa – Antonella aproximou-se de Ana, levando as suas mãos à sua pequena barriga – dentro de ti há um bebé a crescer, saudável e protegido. Por ti e por Deus. Sabes porque é que a Pilar é filha única? – Ana acenou que não com a cabeça – sempre tive problemas em engravidar e eu fiz muitos abortos até que conseguisse que uma gravidez chegasse ao fim – Antonella olhou para Pilar sorrindo, voltou a olhar para Ana acariciando-lhe a barriga – aposto que ainda não tiveste nenhum momento assim. Onde sentisses a tua barriga e os teus dedos parecessem colar à tua pele. E, nesta altura, tu precisas desse momento – Ana reparava que, naquele momento, a sua barriga parecia maior que o habitual. E sabia que Antonella tinha razão: por mais que Sergio tocasse na barriga, que falasse no bebé...Ana ainda não tinha tido o seu momento a sós e de entrega àquele filho.
- Meninas... – Sergio aparecesse na cozinha, percebendo que interrompia o momento – boa. Eu chego sempre na hora certa, não haja dúvida – viu que Ana chorava e que, depressa, tentou limpar aquelas lágrimas.
- Sempre tiveste esse hábito, realmente – comentou Pilar, indo para junto do fogão.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntou Ana, olhando para Sergio.
- Hum. A Esperanza tem fome.
- Eu já levo a sopa dela.
- Boa, até já então –
Sergio saiu da cozinha e Ana não hesitou em abraçar Antonella.
- Nella, obrigada...
- Não me agradeças querida –
as duas olharam-se e Antonella limpou as lágrimas que teimavam em cair no rosto de Ana – sempre que precisares poderás falar comigo.
- E comigo! Não sei tanto do assunto... –
Pilar olhou para Ana, mexendo o arroz que fazia – mas estarei aqui para o que precisares.
- Obrigada. Às duas.
- A Pilar ficou com ciúmes, isso sim! –
as três acabaram por se rir e deram continuação à preparação do jantar. Ana aqueceu a sopa de Esperanza, indo até à sala para que a menina comesse.
Paco tomou a iniciativa de pedir a Ana para dar a sopa à neta. Enquanto ele o fazia, Ana e Sergio acabaram por se afastar tendo um momento mais privado.
- Porque estavas a chorar? – Sergio tinha os seus braços em torno do corpo de Ana e os dois estavam bastante próximos.
- A Nella contou-me que também teve vários abortos...e disse umas quantas coisas que me fizeram pensar em tudo mas, sobretudo, no nosso filho.
- Chegou o momento de perder o medo?
- Acho que esse momento nunca vai chegar, Sergio –
Ana deu-lhe um pequeno beijo nos lábios, passando com a sua mão na face de Sergio – mas tenho de começar a desfrutar da minha gravidez. E agora tenho de ir acabar o jantar com elas, guapo.
Com alguma dificuldade conseguiu afastar-se de Sergio indo até à cozinha. Finalizou a preparação do jantar com Pilar e Antonella e as três foram para a sala de jantar quando tudo estava pronto. Sergio, sem ninguém lhe ter pedido, tinha colocado a mesa.
Como ainda tinham algumas coisas de Esperanza (que muito provavelmente seriam para utilizar para o filho deles) em casa, colocaram a cadeira de refeição da menina junto de Pilar para que ela pudesse ficar perto deles.
- Quando é que nos voltam a visitar?
- Isso é mesmo vontade de nos voltares a ver? –
perguntou Antonella.
- É sim, pode crer. Sabem bem que gosto imenso de todos. Independentemente do que aconteceu no passado, eu sei que poderei contar com a vossa amizade no presente.
- Podes ter a certeza que podes! –
começou Pilar – eu agora vou com os meus pais para Málaga mas devo voltar dentro de um mês. Para ficar.
- Vais viver cá? –
questionou Sergio.
- Vou. Aliás, vamos. Os meus pais já queriam à algum tempo, voltar para Madrid e está mais do que na altura.
- Isso é óptimo! Assim vamos vermo-nos mais vezes, organizar mais jantaradas e isso. Até podemos ir às compras aqui para a pequena coisa que está dentro de mim.
- Olha, olha estou a gostar dessa ideia, estou!
- Vocês vejam lá que ela, quando anda às compras, é perigosa. Então coisas de bebé...
- Já estás para aí a fazer suposições. Eu não sou nada disso! –
todos se riram e acabaram por ter um agradável e tranquilo jantar.


- Ai Sergio, que chato, nossa senhora!
- Oh, cala-te. Ainda só te pedi um beijo e já dizes que sou chato?
- Sim! Estás só a querer agarrar-me e está calor!
- Isso já é o teu mau humor a falar. Amanhã temos a ecografia dos três meses.
- Não me digas...olha, eu não sabia nada disso!
- Confirma-se, estás mesmo de mau humor. Já não te dou a prenda que tenho para ti.
- Não quero as tuas prendas –
Sergio riu-se, percebendo que ela estava a atravessar a fase do dia onde o humor mudava por completo.
Pilar, os pais e Esperanza já tinham ido embora à quase uma hora, mas nenhum dos dois conseguia adormecer. Como Ana dizia, estava mesmo calor.
- Não queres mesmo?
- Não! Era o quê?
- Olha, não te vou dizer. Não querias mais nada, tu.
- Estúpido.
- Até já me insulta, Jesus!
- Desculpa. Sabes que hormonas descontroladas e calor, misturados numa só noite, dão comigo em doida.
- Eu dou-te um grande desconto. Já falaste com a Miranda por causa da nossa ida a Lisboa?
- Não! Oh fogo! –
Ana pegou no telemóvel que estava na mesa-de-cabeceira, percebendo que era o de Sergio. Olhou para ele, como que pedindo a sua autorização para o utilizar.
- Está à tua vontade. O que é meu, é teu.
- Obrigada –
digitou o número de telemóvel de Miranda, esperando que ela atendesse. Não demorou muito a fazê-lo.
- Buenas noches, Sergito!
- É mesmo a Anita que está deste lado.
- Eu bem estava a estranhar ser o cabeçudo a ligar...
as duas riram-se estás boa?
- Assim, assim. Estou com um mau humor do caraças!
- Isso é efeito do calor.

- E tu, estás bem? Como é que se está a dar a Maya na primeira noite em casa?
- Está super calminha, já adormeceu. Por isso dá-me descanso que bem preciso.
- Ainda bem. Também quero um bebé assim –
olhou para sua barriga...Ana queria começar a criar a sua ligação com o bebé, mas tinha medo. E esse medo deixava-a reticente nisso mesmo.
- Vais ter. O meu sobrinho ou sobrinha, vai sair à prima. Já estás mais...sem medo?
- Não. Ainda é complicado pensar nisso tudo.
- Amanhã tens ecografia, não é?
- Tenho.
- Vais ver que, depois da eco, vais sentir-te melhor.
- Assim espero –
Sergio olhou-a, percebendo que deveriam estar a falar da gravidez – olha, temos de falar sobre a ida a Lisboa.
- Ah, sim, sim.
- O Sergio começa os treinos daqui a três dias. Amanhã temos a ecografia, por isso...
- Só lá podem ir depois de amanhã. Eu vou falar com a Manuela...eu não sei como vos agradecer.
- Não precisas de o fazer. Sabes que só queremos que estejas bem, que faças o bem. e, neste momento, não podes nós somos os padrinhos mágicos que vão fazer o recado por ti.
- Obrigada, a sério
do outro lado da linha, ouviu-se o choro de Maya oh não...
- Parece que alguém acordou.
- Parece, parece...vá, vou ver dela. Obrigada, a sério.
- De nada. Manda beijinhos para todos e dá beijinho a ela por nós.
- Dou, sim senhora.

Ana desligou a chamada, colocando o telemóvel no mesmo sitio. Olhou para Sergio, aproximando-se um pouco dele.
- Depois de amanhã vamos para Lisboa...
- Muito bem. Então e, como és uma grande noiva e mãe do meu bebé, eu vou buscar a prenda – Sergio levantou-se indo até ao roupeiro. Voltou de lá com um saco de papel, sentou-se na cama e entregou-o a Ana – espero que gostes. Sei que não é a primeira coisa que recebes mas...é a minha primeira.
Ana estranhou aquela justificação de Sergio, pegando no saco. Abriu-o e pode ver um bonito casaco de malha em branco. Pegou nele, deixando escapar uma lágrima.
- Sergio...
- Eu sei que o Mario te deu uma chucha...daí não ser a primeira.
- É a primeira sim. A primeira roupinha do nosso bebé.
- Convém é comprar mais qualquer coisa que não pode sair da maternidade só com isso vestido.
- Que parvo –
os dois riram-se e Ana puxou-o para junto dela, deixando-se envolver num beijo quente e apaixonado.
 

Era altura de rumar a Lisboa. Estava tudo tranquilo, Ana tinha conseguido autorização da médica para viajar e, na mesma consulta, ficou mais tranquila ao saber que o seu bebé estava a crescer cada vez mais saudável. Ana e Sergio estavam expectantes sobre o que aquela viagem lhes iria proporcionar...iriam fazer algo que nunca pensaram ser possível fazer. Iam a medo. Mas com coragem para enfrentar tudo. Inclusive o marido de Manuela caso fosse preciso. 


Que tal? O que acharam deste capítulo? Não traz novidades bombásticas, não traz grandes acontecimentos mas marca, talvez, um ponto de viragem na história. Espero que tenham gostado e fico à espera dos vossos comentários. Um beijinho,
Ana Patrícia.