terça-feira, 5 de janeiro de 2016

64: “Estou tão feliz que ele esteja, finalmente, aqui.”

- Eu sei que deveria falar contigo primeiro – Sergio olhou para Ana, voltando a olhar em seguida para Mario – mas eu tenho a certeza que ela não vai levantar problemas.
- Isso seria uma verdadeira honra... – os dois abraçaram-se e Mario olhou para Ana que lhe sorria.
Ana sabia que aquele convite de Sergio era sentido, era quase uma forma de lhe agradecer pelo que tinha feito. Não só naquela noite como em todo o tempo que esteve junto de Ana. Não se iria nunca opor àquela vontade de Sergio porque, no fim, acabava por ser uma vontade sua, também.


- Estás pronta? – perguntava Sergio, espreitando para a casa de banho.
- Sim, sim. Podemos ir – Ana encontrou-se com ele no quarto. Tinham regressado a casa à quinze dias. Vicente não os tinha acompanhado. Uma infecção nos pulmões fez com que o pequeno Vicente tivesse de ficar por mais tempo no hospital do que Ana.
Ana e Sergio iam todos os dias visitar o seu menino. Ana, aliás, passava grande parte do dia junto da incubadora do seu filho. Era ela que o alimentava, que lhe dava banho e ajudava no que era preciso. Sergio estava lá nas horas que tinha livres. Quando não estava em treinos ou em compromissos.
Hoje era da de o trazerem para casa. Era o dia que mais ansiavam, o dia que mais queriam. Sabiam que, a partir de agora, aquela casa nunca mais seria a mesma. Já se tinham mudado para a casa nova, já que era a única que tinha as coisas para o bebé. Sabiam que ali iam começar novas memórias, as memórias com o filho que ambos desejavam.
- Estás nervosa? – Sergio reparou que Ana não parava quieta com as mãos. Conduzia em direcção do hospital acabando por juntar uma das suas mãos com as delas.
- Acho que é mais ansiosa, Sergio. Assusta-me um bocadinho que, agora, não tenhamos ajuda das enfermeiras – Ana olhou-o, agarrando a mão dele – mas nós já tomamos conta da Esperanza...não havemos de estar destreinados, não é?
- Claro que não. E, sendo muito sincero, tu fizeste a maior parte do trabalho com a menina.
- Vai correr tudo bem, então. Hum, a Miranda chega hoje à tarde...
- Vem só ela?
- Não, traz a Maya e a Manuela com ela. Os meninos ficam com o Xabi lá em Munique, têm escola.
- Eu vou buscá-las ao aeroporto, então.
- Ai, eu não sei se ela tem alguma coisa combinada ou assim...
- Hum, duvido. Mas daqui a pouco ligamos-lhe para saber.
- Obrigada.
- Não tens nada de me agradecer. Temos de arranjar uma maneira engraçada de lhe dizer que é a madrinha do Vicente.
- E eu tenho de falar, depois, com o Xabi...ele também foi importante nas nossas vidas, devemos-lhe uma explicação.
- Ele terá mais bebés para ser padrinho, no futuro – Ana sorriu e, quando deu por si, já estava junto do hospital.
Os dois caminharam animados por todos os corredores que os levavam ao bebé deles. Caminhavam de mãos dadas, trocando sorrisos cúmplices, quase como se fosse o dia do nascimento de Vicente.
- Vejam quem chegou! – e lá estava aquela senhora tão amável que desde o primeiro dia os acompanhou. A enfermeira Carmén.
Ana partilhou imensas horas com ela. Contaram histórias uma à outra, Ana partilhou um pouco da sua história com ela, assim como Carmén o fez. Carmén tinha idade para ser mãe de Ana já que a sua filha mais nova tinha a mesma idade que Ana.
- Viemos buscar o príncipe! – Ana aproximou-se dela, cumprimentando-a como sempre o tinha feito: um abraço e dois beijos.
- Pois é, pois é. É hoje que vos deixo de ter por aqui! O Vicente foi tomar um banhinho mas já está quase despachado. Venham comigo, eu dou-vos já as coisinhas dele e os papeis todos da alta.
- Gracias, Carméndisse Sergio e os dois caminharam atrás da enfermeira.
Durante cerca de vinte minutos ainda estiveram a falar com o médico e, quando menos esperaram, Vicente entrou naquela salinha no colo de Carmén.
- Aqui está o nosso menino – tanto Ana como Sergio sorriram de imediato. Carmén entregou Vicente a Ana, colocando um das suas mãos sobre o ombro da rapariga – desejo-vos tudo de bom – olhou para Sergio, sorrindo-lhe – e que nos venham visitar só de passagem ou nas consultas que ele tenha daqui para a frente.
- Obrigada, Carmén – começou Ana, agarrando a mão daquela senhora que tinha na sua frente – muito obrigada por todo o tempo que esteve ao pé de nós.
- Foi um prazer acompanhar-vos e tratar deste menino lindo. O importante, agora, é que sejam felizes os três.
- Temos isto para si – Sergio entregou a Carmén o saco que trazia consigo – é apenas uma lembrança.
- Oh meus queridos...até me deixam sem jeito.
- Aceite, Carmén – a senhora sorriu, recebendo o saco das mãos de Sergio dando-lhe, depois, um abraço – é mesmo só uma lembrança.
- Querem que abra aqui?
- Se quiser... – Carmén abriu o saco, retirando de lá uma caixa. Abriu-a, vendo uma bonita pulseira de prata com vários pendentes. Entre eles havia a santa dos enfermeiros, uma família composta por um casal e um filho, uma outra com um casal e dois filhos, uma rosa, entre outras coisas.
- Isto é...tão bonito – Carmén olhou para eles, visivelmente emocionada.
- Estão aí duas famílias. Uma delas representa a sua, a que tem as duas meninas, e a outra representa a nossa. Para que nos tenha sempre consigo porque a teremos sempre connosco – esclareceu Ana.
- Obrigada, meus queridos. Muito, muito obrigada – Ana acabou por abraçar Carmén, mesmo com Vicente ao colo, sendo surpreendidas pelo abraço de Sergio às duas.


- Daqui a pouco vou buscar a Miranda – disse Sergio – tu ficas bem, aqui?
- Claro que fico. Com este doce tão bom, quem não fica? – Ana olhou para Sergio, passando a sua mão pela barriga de Vicente. Tinha o filho deitado sobre as suas pernas.
- Estou tão feliz que ele esteja, finalmente, aqui.
- És tu e eu, Sergio. E está tão calminho!
- Espero bem que seja assim de noite, também! – os dois riram-se e Sergio não resistiu em fotografar aquele momento do filho – importaste que partilhe a foto? Ainda não colocamos nenhuma do menino...
- Pois não...podes fazer isso nos teus perfis e nos meus? Por favor? – pediu Ana, encostando-se no sofá.
- Faço sim senhora – por uns momentos Ana ficou simplesmente a olhar para o filho enquanto Sergio tratava de anunciar a chegada de Vicente a casa.

Bienvenido a casa, hijo. Amamos-te imenso e vamos encher-te de beijos e amor todos os dias.

- Agora vou indo, sim? – Sergio levantou-se do seu sofá, indo ter com Ana e Vicente. Deu um beijo na testa do filho e outro nos lábios de Ana – volto num instante com três mulheres – voltou a beijar a testa do filho – vais conhecer a tua futura namorada, Vicente – os dois riram-se e Sergio saiu de casa.
Ana não se conseguiu sair dali. Para além do filho ter continuado a dormir, reparou que tinha algumas chamadas no seu telemóvel. Entre o seu tio Ricardo e a sua avó, ainda tinha uma de Mario. Começou a telefonar para todos, começando pela avó.
- Ana...
- Olá, avó. Está tudo bem?
- Sim querida, está tudo bem. Queria saber se o teu menino já saiu do hospital.
- Sim. Já estamos em casa... – por muito que quisesse manter uma relação bonita com a avó, Ana ainda não conseguia ter muito à vontade com ela.
- Achas que vos posso ir ver? Gostava imenso de vos ver...
- Claro. Quer vir cá amanhã ou vamos nós ter consigo...
- Não, não. Eu passo aí amanhã, então. Deixem-se ficar por casa, a sério. Mandas-me a tua nova morada?
- Sim. Avó...o Gonçalo vem consigo? – tinha saudades do seu irmão. Por muito que não o demonstrasse, Ana sentia falta de uma família sangue do seu sangue. Queria uma relação com eles, uma relação que tardava em existir.
- Eu estava a pensar que ele me fosse levar...
- Venham, venham.
- Então até amanhã, minha querida.
- Até amanhã, avó – desligou a chamada que fazia com a avó, iniciando uma para o seu tio. Assim que ele a atendeu, pode ouvir Sérgio, o primo, a rir-se à gargalhada – alguém está muito animado – começou por dizer.
- Nem me digas nada, querida. Está elétrico hoje.
- É o contrário do primo. O Vicente ainda à pouco chegou e já está a dormir.
- Que seja assim tão calminho de noite!
- Deus o ouça! Mas ele sempre foi calminho lá no hospital...
- E como é que ele está?
- Está bem. Temos de o manter muito resguardado, daqui a uma semana volta ao hospital para a consulta mas está tudo bem, tio.
- Ainda bem. A tia está a mandar-te beijinhos e que, qualquer dia, passamos aí pela vossa casa para vos fazer uma visita.
- Serão muito bem-vindos. Amanhã vem cá a avó e o Gonçalo... – acabou por dizer, um pouco receosa ou nervosa.
- A D. Palmira vai visitar-te?
- Sim. Estive a falar com ela à pouco...eu acho que vai ser bom. Pode ser que o Vicente venha dar alguma estabilidade a isto tudo.
- Isso era muito bom, querida.
- E como é que está tudo com vocês?
- Por aqui está tudo bem. O teu primo cada vez mais irrequieto mas todos muito bem.
- Tio, vou ter de desligar. Tenho mais umas chamadas pendentes e daqui a pouco a Miranda está a chegar.
- Ai ela está de regresso a Madrid?
- Veio passar uns dias aqui a casa. Quer conhecer o afilhado e ainda tem umas coisas para levar lá para Munique.
- Então aproveitem bem, querida. Beijinhos para todos.
- Beijinhos para vocês também – desligou a chamada, olhando para Vicente que começava a mexer os seus braços – estás a ficar com fome, não é? A mãe vai só ligar ao tio Mario e depois vamos comer – passou com a sua mão pelas pernas de Vicente, começando uma chamada para Mario. Não demorou muito até que ele atendesse – olá senhor Mario!
- Olá, loca! Já vi a foto linda do meu afilhado! Que coisa mais boa!
- Saiu à mãe, eu sei.
- Não sejas convencida, Ana Moreira. Isso só te fica mal. Até porque, nas partes íntimas, não é contigo que se parece!
- Ei! Estás muito animado Mario Suárez!
- Digamos que as coisas correm bem.
- Ai é?
- Que me dizes de eu passar aí para exercer o meu papel e contar as novidades?
- Vem, vem. Assim tu e a madrinha oficializam logo a ligação com o Vicente.
- A Miranda chega hoje?
- Deve estar mesmo, mesmo a chegar.
- Então, se calhar, não deveria ir...já vão ter muita gente aí em casa.
- Vem logo, Mario. O Vicente agradece mais um par de braços para saltar.
- Então, daqui a uma hora, mais ou menos, estou aí. Beijo!
- Até já – desligou a chamada, atirando o seu telemóvel para o canto do sofá. Pegou em Vicente, aproximando a testa do filho da sua testa. Depois de lhe dar um beijo, levantou-se indo com ele até à cozinha – vamos lá, então, fazer um belo de um biberão para o meu bebé. A madrinha já podia era ter chegado... – ia sempre falando com o filho enquanto lhe preparava o biberão.
- Ana?! – estava tão distraída que não se tinha apercebido que Sergio já tinha chegado.
- Estou na cozinha, vou já! – fechou o biberão, começando a dá-lo a Vicente. Saiu da cozinha, indo até à sala. Sergio estava a ir na direção da cozinha parando assim que Ana apareceu na sala. Miranda e Manuela estavam sentadas no sofá, sendo que Maya estava nos braços da mãe.
- Vejam só quem chegou! – desviou o seu olhar de Vicente, olhando para Miranda e Manuela – estão tão lindas as três!
- Olha quem fala! Agora até tens um adereço todo lindo – Miranda levantou-se e as duas aproximaram-se uma da outra – Maya, olha o primo, olha – Miranda virou a filha para que visse Vicente e, de imediato, Maya sorriu, batendo palmas. Aproximou-se de Vicente passando a sua pequena mão pela cabeça do menino – cuidado, é bebé! – ou ouvir a mãe, afastou-se escondendo a cara no pescoço de Miranda – agora ficou envergonhada.
- Ela nem se deve lembrar de mim... – Ana encostou a sua testa às costas da menina, olhando para Miranda – tinha saudades tuas.
- Agora estou aqui – como Miranda estava mais livre dos braços, acabou por ser ela a abraçar Ana – estou aqui para passar uns belos dias com as pessoas mais lindas de Madrid – voltou a olhar para Ana, dando-lhe um beijo na testa.
- Vá lá, Munique está a tornar-te mais simpática! – comentou Sergio.
- Até parece que eu sou algum bicho.
- És quase...
- Este teu marido... – as duas riram-se – quando é que casam?
- Um dia destes – acabou por dizer Ana, indo com Miranda sentar-se no sofá. Cumprimentou Manuela, continuando a dar o biberão ao filho.
- É um gato o futuro namorado da minha filha! – atirou Miranda.
- Então mas apresentaste-o como primo! Como é que queres que eles namorem? – perguntou Sergio, sentando-se ao lado de Ana.
- Mas ele agora só está bem a mandar vir comigo? – todos se riram e Ana acabou por perceber que o biberão já tinha terminado – queres trocar? – perguntou Miranda, fazendo com que Ana olhasse para ela – acho que a tua afilhada tem uma prenda para ti! – Ana riu-se, levantou-se e foi até Miranda. Entregou-lhe Vicente para o braço que tinha disponível pegando em Maya.
- As coisinhas dela? É que eu só tenho fraldas de recem-nascido...
- Estão naquela malinha branca – Manuela apontou para a mala e Ana foi buscá-la, indo até ao quarto de Vicente para trocar a fralda a Maya.
Deitou-a em cima do trocador de fraldas, começando a tarefa.
- A madrinha tinha saudades tuas, fofinha – Maya sorriu-lhe, piscando os olhos – estás tão bonita e tão parecida com o teu pai! – sim, Maya estava cada vez mais parecida com Xabi – estamos quase a terminar – assim que terminou de vestir a menina, não resistiu em tirar uma fotografia partilhando-a nas redes sociais.

A afilhada mais linda de sempre! Te echaba de menos, Maya.

Pegou na menina ao colo, indo até ao andar debaixo. Reparou que Mario já tinha chegado e era ele que tinha Vicente ao colo e o menino dormia muito tranquilo.
- Só tenho pessoas bonitas nesta casa – aproximou-se de Sergio, sentando-se nas pernas dele – está despachadinha. A próxima quem troca é o padrinho – Miranda riu-se e Sergio começou a fazer cócegas a Maya.
Passaram o resto do dia juntos. Sempre em torno dos bebés, em saber como é que a vida de Miranda ia por Munique. Na hora do lanche, Ana foi até à cozinha preparar algo para comerem, sendo surpreendida por Mario.
- Aquele puto é tão lindo – comentou Mario, encostando-se à bancada da cozinha.
- É sim senhora.
- E tu não poderias estar mais feliz.
- Nota-se assim tanto?
- Bastante! – os dois riram-se e Mario começou a ajudar Ana – Sabes...eu tenho andado a sair com uma pessoa – Ana olhou-o.
- Arranjaste namorada?
- Não a chamemos disso...ainda está muito no inicio – Ana deu-lhe um encontrão.
- Tu estás apaixonado! Eu conheço-te!
- Oh, olha...ela faz-me sentir bem. É tão boa onda, tão calma...
- Estás apaixonado...e eu fico tão feliz por ti, Mario – Ana não resistiu em abraçá-lo – quando as coisas se tornarem mais sérias tens de nos apresentar a sortuda!
- Sim senhora – Mario abraçou-a também, olhando para ela de seguida – obrigada, Ana.
- Do que é que me estás a agradecer?
- Oh, tens sido espetacular comigo desde sempre...
- E tu comigo. Por isso, obrigada eu também. Desde que o Vicente ficou internado ainda não tivemos tempo para falar como deve ser...foi muito importante teres estado presente no nascimento dele. E é ainda mais reconfortante saber que, caso nos aconteça alguma coisa, ele terá os melhores padrinhos do mundo.
- Só me posso sentir lisonjeado por isso – os dois trocaram um sorriso cúmplice, continuando a fazer o lanche.


- Acho que podia ler esta hoje... – Ana deitou-se ao lado de Sergio com uma carta dos seus pais na mão.
- Qual é essa? – Sergio sentou-se na cama, recebendo Ana nos seus braços. A rapariga tinha a sua cabeça deitada na barriga de Sergio sentido os braços dele a aconchegarem-na.
- “Quando nascer o nosso neto”
- Não sabia que havia essa.
- Tenho-a guardada num sitio diferente das outras. Esta e mais umas quantas. São aquelas que eu vejo que vou ler mais em breve, percebes?
- Acho que sim.
- Vou começar a ler, então.

Se não estás dorida, se não estás com um sono horrível, se não estás cansada...o nosso neto deve ser do mais sossegadinho que poderias ter. Ou então recuperas bem de um parto.
És mãe, minha filha. Chegou o dia, o momento em que todos te felicitam pela maior conquista que terás na vida. Um filho. É parecido contigo? Com o pai? Olha bem para ele e decora todos os seus traços, olha bem e vê com quem é parecido.
Quando tu nasceste, todos diziam que eras parecida comigo quando era da tua idade. O teu pai ficava fulo e reclamava, dizendo seres parecida com os dois. Eu achava o mesmo. Sempre tiveste o feitio dele: teimosa! Acho que nunca conheci um bebé com tanta teimosia como tu. Se te deitássemos noutra posição era o caos, se a chucha era diferente fazias uma birra do tamanho do mundo. E na hora do banho? Bastava a água estar mais quente para desatares a chorar. Já viste como eras teimosinha, minha querida?
Espero que tenhas disso com o teu filho, sabes? Um bebé calmo e que só come e dorme torna-se uma monotonia desgraçada. A agitação do bebé, os nervos de não saberes o que fazer com ele, a experiência de ser o primeiro...é algo que deve ser vivido na plenitude, com todos os seus contratempos.
Claro que te desejo tudo do melhor. Claro que quero que ele ou ela te dê noites de descanso completas, que seja saudável todos os dias da sua vida, que não faça birras a comer, que não faça birras por causa da chucha. Mas vive-o. Vive o teu filho como se nele estivessem todos os obstáculos da tua vida.
Conseguiste viver tantos anos sem pais...não imagino como terá sido difícil, ratinha. E, neste momento, chegou a hora de dares o amor que recebeste de nós ao teu bebé. Chegou a hora de lhe dares todo o amor que nós não te demos. Ama-o como se todos os centímetros dele fossem a tua continuidade. Como se fosse a continuidade do pai dele. Como se ele fosse a continuidade de vocês. Porque o é. É a prova viva do vosso amor.
Aproveita bem todos os dias com o bebé. Todas as horas, minutos, segundos que tenha o dia. O tempo irá passar depressa Ana e, quando deres por ti, estarás a celebrar o primeiro mês de vida, o primeiro ano, o segundo...e olhas para trás parecendo que foi há tão pouco tempo que o tinhas no teu ventre.
Espero que não fiques pelo primeiro. E que venha o segundo, o terceiro e o quarto. Sempre nos disseste que querias quatro filhos. Quatro nenucos como dizias. 
Caso estejas a ler esta carta e, por algum motivo, não tenhas conseguido ter um filho...pensa nos quantos existem que podem ser teus. Adota. Sê mãe de uma criança que precise do teu amor. Sê mãe com o coração, com o teu coração cheio de amor.
Eu, e o pai, acreditamos que tu irás ser mãe de qualquer forma. Nasceste para isso, está já destinado para ti. E, nesse caso, nós seremos avós e, onde quer que estejamos, iremos cuidar de ti, dos teus filhos e de todos aqueles que ao teu redor de protegem.
Parabéns minha filha. E força, irás ser a melhor mãe do mundo!

Para sempre te amaremos,
Os teus pais.

- É incrível como eles conseguiram deixar tudo planeado... – comentou Sergio.
- A mim faz-me imensa confusão – Ana sentou-se na cama, colocando a carta na sua mesinha de cabeceira – por mais que estas cartas me encham o coração, elas deixam-me com saudade, deixam-me confusão. Eles fizeram isto tudo vivendo comigo...tudo isto foi escrito, se calhar, sob o meu olhar.
- Posto dessa forma, sim...eu imagino que seja confuso.
- E amanhã vem aí a minha avó com o meu irmão – Sergio, pela sua expressão, estava mesmo surpreendido pelo que acabava de ouvir – a minha avó ligou para saber se podia vir conhecer o Vicente. E tudo isto mexe comigo.
- Anda cá – Sergio puxou-a para os seus braços, dando-lhe um beijo na testa – nós começámos o tu e eu mais queríamos na vida: uma família. Todo o teu passado é muito conturbado mas olha para ele apenas como aquilo que não queres que seja o teu futuro. Porque, agora, o nosso futuro é que conta. O futuro do Vicente. E da nossa felicidade. Pega no teu passado bom, nas coisas boas...assim ficarás melhor.
- É complicado. Já imaginei tantas vezes em puder apresentar o Vicente aos meus pais...
- Eles já o conhecem, meu amor. Onde quer que eles estejam, eles estão a olhar por ti.
Ana não lhe conseguiu dizer mais nada. Tudo aquilo mexia imenso com ela. Precisava de dormir, de não pensar mais no passado por hoje. Já que amanhã ele iria entrar pela porta de sua casa.



Em semana de aniversário, aqui vos deixo um capítulo para começar a celebração. O próximo sairá no Domingo, dia em que esta história irá completar três anos de existência. 
Fico à espera dos vossos comentários e que tenham gostado do que leram. 
Beijinhos e até Domingo,
Ana Patrícia.

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